quinta-feira, 15 de abril de 2010

A Igreja não prova a existência de Deus, testemunha-a.

Que provas dá a Igreja da existência de Deus?, perguntaram-me há dias.Como responder a uma pergunta, imagino que sincera, mas, em si mesma, tão insidiosa? Que dizer de significativo se, à partida, Deus fosse colocado como simples objecto de uma prova científica ou como demonstração de tipo matemático? Existirá, na história do cristianismo, uma única pessoa que tenha chegado à fé, só porque alguém, particularmente inteligente e claro, lhe provou que Deus, de facto, existe? Ou, ao invés, haverá alguém que deixe de crer, simplesmente porque outro, igualmente inteligente e muito esclarecido, lhe prova que Deus, afinal, não existe?

Bastaria abrir uma só vez qualquer página da Escritura para perceber que, na tradição hebraico-cristã, a existência de Deus se coloca num registo totalmente diferente. Antes de mais, porque é o Deus de um povo, de homens e de mulheres de carne e de respiro. Ou bastaria recordar que o cristianismo não se compreende sem a encarnação de Deus na história de Jesus. Portanto, que Deus não diz de Si senão enquanto Se dá a nós, dando-Se a reconhecer por dentro dos cumes e dos abismos da nossa humanidade, das nossas linguagens, dos nossos ritmos e lugares. A fé cristã não professa simplesmente que Deus existe (seria tão pouco ou quase nada), mas, sim, que a Sua existência é radicalmente relevante para a nossa. Em Jesus, sim, professa que Deus existe, mas enquanto existe desde sempre para nós e que é para sempre connosco. Deus é enquanto Se dá e dá-Se enquanto Se dá ao reconhecimento dos nossos afectos e da nossa inteligência. No fundo, da nossa liberdade.

É verdade que o tema das provas da existência de Deus é muito antigo no pensamento cristão. Diz respeito ao «conjunto de procedimentos intelectuais pelos quais a razão humana se eleva até à formulação de Deus». Sobre ele escreveram pensadores de tanta relevância como S. Agostinho, S. Anselmo, S. Tomás, Kant ou Hegel. Em 1870, foi um Concílio, o Vaticano I, a afirmar que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido e, portanto, demonstrado a partir «das obras visíveis da criação», tal como uma causa é conhecida pelos seus efeitos. Não é pouco o que aqui se declara. Trata-se da relação íntima e inseparável que, no cristianismo, se estabelece entre criação, fé, inteligência e procura da verdade. Ou, de outro modo, da afirmação de que Deus, Aquele que na fé Se professa e Se adora, não é estranho à razão que partilhamos enquanto seres humanos. O Papa Bento XVI não se tem cansado de o recordar. Sabemos, porém, que colocar, hoje, a questão de Deus em termos de provas irrefutáveis, ilude, antes de mais, a dinâmica e a fecundidade existencial da fé que é sempre visceral e dramática. Sendo questão de vida, não pode não implicar a totalidade de uma vida e uma vida toda. Além disso, não é difícil encontrar quem, por meio de provas irrefutáveis, pretenda argumentar a não existência de Deus. Basta recordar R. Dawkins (A ilusão de Deus) – autor que recentemente escreveu sobre as «razões para não crer». Colocando-se no campo das provas, pretendeu provar, finalmente, que Deus é apenas uma ilusão. Mas, dito isto, sobre Deus e sobre a fé, não ficou ainda (quase) tudo por dizer?

Voltando à pergunta inicial – que provas dá a Igreja da existência de Deus? – responderei que a Igreja não prova, testemunha. A primeira testemunha é o próprio Jesus que, na história da sua vida entre nós, realiza a reciprocidade mais perfeita que um homem pode desejar ter com a sua própria origem. A esta chamou Pai. Assim é para cada cristão. Pela configuração da sua vida ao Evangelho de Jesus, cada qual, segundo a sua medida, diz quem Deus é, garantindo que quer ser para nós, mas não sem implicar a nossa liberdade. Depois, por serem testemunhas, nem os cristãos, nem os mártires entre eles, são cópias ou repetidores. Por darem uma configuração particular e única à «verdade que é a vida de todos e de sempre»; por lhe darem corpo e biografia, cada qual testemunhará sempre a originalidade de um encontro único, dizendo, por isso, algo de singular sobre a infinita riqueza de Deus que é para nós.

Para aprofundar:J. I. G. FAUS – I. SOTELO, Deus e a Fé, Casa das Letras, 2005.
E. SALMANN, La palabra partida: Cristianismo y cultura postmoderna, PPC, 1999.
P. SEQUERI, La idea de la fé, Sigueme, 2007.
José Frazão Correia sj

sábado, 27 de março de 2010

Encontro de preparação para o Crisma


Nos próximos dias 29 e 30 de Março, segunda e terça da Semana Santa, os jovens do 10ºano de catequese irão fazer a preparação para a celebração do crisma!


Há momentos que precisamos naturalmente de preparar. Se alguns os preparamos nos seus aspectos estéticos, há outros, cuja preparação tem de ser feita dentro do coração. O crisma é um desses momentos! É a celebração de um sacramento (sinal visível da graça de Deus invisível). Não é simplesmente um dia bonito… é o fim de uma etapa, mas o início de um novo desafio: ser verdadeiramente cristão!


O encontro realizar-se-á na casa dos padres Franciscanos, no Marco dos Pereiros. Sairemos da Igreja de Lagares da Beira, às 9h00 de segunda-feira e regressaremos no dia seguinte às 17h00!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Com uma pedra no “sapato”…


A vida é feita de sinais que se tornam símbolos! A Quaresma está cheia deles: reconciliação, jejum e abstinência (normalmente de carne às sextas-feiras), renúncias; tempos de oração mais prolongados! Símbolos estes, que desafiam a uma autenticidade da própria fé. Para além destes que procuraremos observar, haverá um que se torna um desafio às nossas sete comunidades, que será um carregarmos uma pequena pedra ao longo de toda a quaresma, até ao dia em que celebrarmos o sacramento da reconciliação. Esta pedra, distribuída no final de cada celebração, recordar-nos-á outras “pedras”, as do coração. Deus quer tornar o nosso coração de pedra, num coração de carne, mais humano e bom.